
Ele tinha motivos para falar, mas ainda sim, preferiu o silêncio.
23 horas e lá estava eu, deitada. Pronta para pegar os fones de ouvido, deixar a musica no ultimo volume e fechar meus olhos – normalmente essa era a melhor parte do meu dia -, mas aí o celular toca. Deixei tocar. Não estava nem um pouco afim de estragar aquele momento, mas sem pensar muito bem, já estou com ele na mão.
- Alô?
- Angelina? Sou eu.
Eu poderia não dizer nada, nem sequer continuar falando com alguém que eu já havia decidido esquecer. Olhei a hora - a única coisa que me convenceu de falar algo.
- O que aconteceu, Jhone? – pergunto com um tom de preocupação, apesar de não querer demonstrar absolutamente mais nada.
- Aconteceu que eu não consigo, Angelina. Me explica como vai ficar, porque eu não sei mais o que fazer. – eu não quis acreditar que a voz soou com um tom de quem havia chorado, então ignorei.
- Então é assim? Você me liga a essa hora e me fala que supostamente não consegue desapegar de mim, sendo que praticamente você implorou por isso?
- Você sabe como eu sou. Talvez só você saiba. Sou complicado. Sabe aquele carinha certinho que raramente quebra as regras, e que faz tudo certinho com medo de magoar alguém? Eu sou totalmente o oposto, você sabe, não sabe? Não quis desapegar de você, até porque eu não consigo. Muito menos quis te deixar assim por minha causa, Angel.
Odeio. Odeio quando ele me chama de Angel. É um dos raros momentos onde ele consegue fazer com que eu não fique brava com ele.
- Então o que você quer, Jhone? Quer que eu aceite que você saia nos 3 dias da semana com os amigos que te influenciam a pegar aquelas que todo sábado você leva pro motel? Aliás, você deve estar ligando pra mim depois de ter deixado o dinheiro naquela cama. Ela também já te ligou? – espero uns segundos e então continuo. - Olha… Me deixa. Vou voltar a deitar e ouvir nas músicas, tudo o que você não sabe dizer. Eu vou desligar. – respiro, procurando alguma forma de manter a calma.
- Espera. Eu… – e foi só isso o que ele conseguiu dizer: “eu”, a primeira pessoa do singular que, no meu dicionário, não significa nenhum sentimento.
- Resposta errada, Jhone.
- Não desliga, Angelina. Me desculpa?
- Não me liga mais.
- Angel, por favor.
Tento fazer com que minha voz saia seca como quem não está prestes a desmoronar e pedir para que ele fique.
- Angelina! Meu nome é Angelina. Eu sinto muito, Jhone. Você não sabe o quanto eu sinto.
(Silêncio)
- Eu te amo, Angel.
Ela certamente não ouviu a ultima frase. E eu só pude ouvir a “segunda pessoa do singular” – como ela costuma falar -, durante várias vezes. Eu poderia ter dito antes, mas ninguém entenderia, principalmente ela.
Talita Melo - (TM)